ENAMORAMENTO E AMOR
CAP. PRIMEIRO
O que é o enamoramento? É o estado nascente de um movimento colectivo a dois. (…) O enamoramento não é um fenómeno quotidiano, uma sublimação da sexualidade ou um capricho da imaginação (…) antes pode ser inserido numa classe de fenómenos já conhecidos, os movimentos colectivos. Entre estes tem certamente a sua individualidade muito própria, isto é, não pode ser confundido com outros tipos de movimentos colectivos, como a reforma protestante, o movimento estudantil, o feminista (…) ou o movimento islâmico de Khomeini. Contudo, pertence ao mesmo género, é um caso especial de movimento colectivo, e entre estes e o enamoramento há um parentesco muito próximo, as forças que se libertam e que actuam são do mesmo tipo, muitas das experiências de solidariedade, alegria de viver, renovação, são análogas. A diferença fundamental está no facto de os grandes movimentos colectivos serem constituídos por muitíssimas pessoas e estarem abertos ao ingresso de outras mais. Contrariamente, o enamoramento, sendo embora um movimento colectivo, nasce apenas entre duas pessoas, e o seu horizonte de dependência, qualquer que seja o valor universal que possa desencadear, está vinculado ao facto de ser completo com duas únicas pessoas. Este é o motivo da sua especificidade (…)
CAP. SEGUNDO
Segundo uma ideia muito divulgada, a diferença entre as sexualidades humana e animal está no facto de esta ser cíclica, aparecer de modo explosivo na estação dos amores e depois desaparecer. No homem, contrariamente, diz-se, o desejo sexual é algo de contínuo, sempre presente, e, se não se manifesta com intensidade, é porque é reprimido. Quer dizer, a sexualidade é colocada na mesma classe das outras necessidades, como o sono e o comer, algo de sempre presente em quantidade quase constante, dia após dia. Trata-se de uma concepção que se espalhou com a vulgarização da psicanálise. (…) A resposta parece-me esta: todos os homens e todas as mulheres tiveram, durante a sua vida, períodos em que as experiências sexuais eram frequente, intensas, extraordinárias e exaltantes, e desejariam que fosse sempre assim. Estes períodos são tomados como unidade de medida da sexualidade quotidiana, ordinária, aquela que se mede nas investigações (…) e que nós vivemos quase habitualmente.
Ora, se reflectirmos bem no facto de termos passado todos pela experiência de breves períodos de sexualidade extraordinária e de longos períodos ordinários, deveríamos concluir que, em verdade, também no homem a sexualidade não é algo de contínuo, como o comer e o beber. Ela é, antes, algo que existe sempre, como as outras necessidades, na sua forma ordinária, mas que assume uma forma e uma intensidade totalmente diferente, extraordinária, em certos períodos do amor. (…)
CAP. QUARTO
O enamoramento é separar aquilo que estava unido e unir o que se encontrava dividido, mas unir de modo particular, porque esta união apresenta-se como alternativa estrutural a uma relação estruturada. A nova estrutura desafia a antiga nas raízes, rebaixa-a a algo que não tem valor. Em paralelo, funda a nova comunidade na base de um valor absoluto, um direito absoluto, e reorganiza em torno deste todas as outras coisas.
CAP. SEXTO
(…) Tanto os terapeutas da família como os do amor têm em mente apenas aquele "viveram felizes e contentes" do conto de fadas, que prometem a torto e a direito como se fosse a coisa mais fácil de realizar. Todos os psicólogos, sociólogos e assistentes sociais, vários tipos de terapeutas, no fundo, apenas prometem isto: a felicidade perfeita e contínua, mas ao fazerem-no são como os médicos charlatães que andavam pelas praças com o frasquinho de elixir da longa vida ou da eterna juventude. Na realidade, se a eterna juventude é biologicamente impossível, () o mesmo deve dizer-se da felicidade, da tranquilidade contínua, do "viveram felizes e contentes", que é um contra-senso no plano da experiência existencial.
Trata-se por isso de um mito, um mito divulgadíssimo e continuamente renovado por todos nós sem tão pouco dele nos apercebermos. (…)
CAP. SÉTIMO
Será possível amar simultaneamente duas pessoas? Certamente. Amar uma e enamorar-se de outra? Certamente. Estar enamorado de duas? Não. Cada um de nós ama várias pessoas: a mãe, o pai, a companheira e os filhos. Nenhum destes amores exclui o outro, nenhum deles tira nada ao outro. Do mesmo modo, é possível um homem amar duas mulheres e uma mulher dois maridos. Cada um pode, continuando a amar a primeira, enamorar-se de outra pessoa, ou antes, esta é a regra geral. Pelo contrário, torna-se inviável enamorarmo-nos de duas pessoas diferentes. (…)
O enamoramento é, de facto, um processo de reestruturação de todas as relações em torno de um indivíduo, indica a direcção absoluta do novo movimento, e dois enamoramentos simultâneos são por isso incompatíveis, porque significariam que o indivíduo se deslocaria com toda a força da sua alma para atingir objectivos absolutos mas diferentes.
O que acontece então quando duas pessoas enamoradas têm um filho? (…) a sabedoria popular (…) diz que um filho consolida o amor (…) mas trata-se de amor, não de enamoramento. O filho, na realidade, torna-se o objecto de amor de ambos, que se enamoram simultaneamente dele. A relação depende agora da existência de um terceiro (…) já ninguém é absolutamente essencial para o outro, já ninguém é o deus do outro, ambos se curvam à adoração de um deus nascente exterior a eles. (…)
CAP. OITAVO
(…) O enamoramento, quanto tudo corre bem, termina no amor; o movimento, quando resulta, produz uma instituição. Contudo, a relação que há entre enamoramento e amor, entre estado nascente e instituição, é do tipo da que existe entre levantar voo, voar e ter chegado, entre estar no céu sobre as nuvens e ter pousado de novo estavelmente os pés na terra. Uma outra imagem é a da flor e do fruto: quando há fruto já não há flor, e não tem sentido, na realidade, perguntar se aquela é melhor que este ou vice-versa. Do mesmo modo, não tem lógica perguntar se é melhor o estado nascente ou a instituição; sem um não há o outro, e vice-versa; a vida é feita de ambos. Mas não tem ainda sentido confundi-los porque eles são distintos. O modo de sentir, de pensar e de viver no estado nascente é diferente do da vida quotidiana institucional. (…)
Este conjunto de modos de pensar e de sentir (instante, eternidade, felicidade, fins absolutos, autolimitação das necessidades, igualdade, comunismo, autenticidade e verdade, realidade e contingência, etc.) são propriedades estruturais, permanentes, do estado nascente; por isso nós pensamos, sentimos, apreciamos de modo diferente, radicalmente diferente, quando nos encontramos no referido estado.
CAP. NONO
(…) Temos visto que se enamora quem está predisposto a isso,, quando existem certas pré-condições, quando se verificou uma certa elaboração, quando foram já feitas tentativas, experiências. Quem se enamora já tentou ou já experimentou fazê-lo várias vezes. (…) o estado nascente tem o poder de despertar nos outros as suas próprias qualidades. Quando uma pessoa se enamora de outra suscita sempre nela um despertar, uma emoção. Quem ama tende a arrastar o amado no seu amor, e se também o outro está disposto a isso é fácil nascer um encontro e até um enamoramento.
CAP. DÉCIMO
Dissemos que se enamora quem está predisposto a enamorar-se, está disponível. Quer dizer, então, que nós nos enamoramos quando sentimos esse desejo? Quer dizer, então, que quem sente forte, ardente, o desejo de um novo grande amor está predisposto a enamorar-se? Não. Não há relação alguma entre o desejo de um amor e o enamorar-se verdadeiramente. (…) Na realidade, [os que encontram sempre um defeito qualquer] não estão predispostos a enamorar-se, ainda que o desejem; o enamoramento que pretendem, também ardente, não é uma necessidade de romper por completo com o passado, de repor em discussão a sua vida, de lançar-se no risco do totalmente novo.
Ninguém se enamora se está, embora parcialmente, satisfeito com o que tem e com o que é. (…) Não é a nostalgia de um amor que nos faz enamorar, mas a convicção de não termos nada a perder tornando-nos naquilo que somos; é a perspectiva do nada à nossa frente. Só então se constitui dentro de nós a disposição para o diverso e para o risco, aquela propensão de nos lançarmos no tudo ou nada, que os que estão de qualquer modo satisfeitos com o que são não podem experimentar.
(…) Só quem está a perder a sua existência se aproxima da porta que separa o real do contingente; isto vale para todos os estados nascentes, por isso é também válido para todos os movimentos. Neste período a “resposta” pode igualmente não lhe vir de uma outra pessoa, ou seja, é passível de não terminar no enamoramento. Se o sujeito que está preparado para a mudança de estado se insere num sistema social onde se acha prestes a explodir um movimento colectivo, ele reconhecer-se-á neste; não se enamorará de uma pessoa, mas entrará no estado nascente de um grupo.
(…), se quisermos, é fácil fazer com que alguém se enamore de nós? Sim. Isto é possível porque há sempre quem esteja preparado para o enamoramento, quem se encontre disposto a lançar-se no tudo e no nada de uma vida nova. Então, uma pessoa pode apresentar-se –lhe para demonstrar que tudo isso é possível e representar aos seus olhos a porta através da qual encontrará a liberdade e a alegria mais plena. É possível fazer enamorar alguém se, no momento adequado, uma pessoa lhe surge mostrando-lhe que o compreende profundamente, se o anima na sua vontade de renovação, se o impele nesta direcção, lhe dá coragem, se se declara disposta a partilhar com ele o risco do futuro, ficando junto dele ombro a ombro, do seu lado, de qualquer maneira e para sempre. Qualquer pessoa pode fazer enamorar uma outra, que esperava a chamada, se lhe faz ouvir a voz que o chama pelo nome e lhe diz que o seu tempo chegou; se lhe diz que está aqui para reconhecer o destino de que ele é portador (…) [tudo isto pode ser enganador]
CAP. DÉCIMO SEGUNDO
(…) Quase todas as qualidades do estado nascente as encontramos concentradas na adolescência, fase da vida em que é mais frequente esse estado, e compreende-se porquê: a adolescência é o período de passagem da infância e da família infantil ao estado adulto em toda a sua complexidade (…) Separar-se da família, do mundo dos valores, das emoções e das crenças infantis, e unir-se a outras pessoas para amar, mas também aos partidos, aos grupos, à política, à ciência. A adolescência é, por isso, a idade do contínuo morrer e renascer para outro (…) A instituição tem horror do estado nascente, é a única coisa que receia, porque é a única que lhe abala, só pelo facto de aparecer, os alicerces. Do ponto de vista da instituição, o estado nascente é, por definição, o inesperado; porque a sua lógica é diferente da vida quotidiana (…) ataca a instituição em nome dos seus próprios valores, acusando de hipocrisia (…) perante o estado nascente, a instituição é abalada nas suas certezas, pois reproduzindo o evento do qual ela nasceu, revelando no estado puro as forças que o alimentam, o estado nascente cria uma situação de risco mortal. Os mecanismos sociais procuram extingui-lo, torná-lo impossível (…) o noivado, a separação, o divórcio, a mancebia, a vingança, o casamento, são tudo saídas institucionais daquele tipo particular de estado nascente que é o enamoramento (…) é este o rosto que a instituição apresenta ao estado nascente: rosto terrível, desumano, e que não pode surpreender por si, pois, de facto, ela surge também do estado nascente. Veremos em seguida como o amor, o pacto, o casamento, surgem do enamoramento. A um certo ponto, o estado nascente acaba e o seu lugar é tomado pela instituição, a qual declara realizar completamente a experiência do estado nascente. A missa é a reprodução do sacrifício da cruz, diz o catecismo, mas, na realidade, quem assiste à missa pode reviver ou não esta experiência. Um místico revive-a, um distraído não, porque pensa em outra coisa; alguém que não acredite observa a missa como um espectáculo mais ou menos estranho, mais ou menos aborrecido. A missa, que no estado nascente religioso do qual nasceu era o reviver do sacrifício da cruz (e que volta a sê-lo quando aquele estado nascente se reactiva), como instituição pretende reactivá-lo sem a participação dos homens. Todas as celebrações, todas as festas, todos os pactos, todas as instituições, nasceram – e renascem – através dos movimentos constituídos por homens concretos, mas, enquanto instituições, não têm necessidade dos homens. [os jogadores e os treinadores vão, o Porto ganha sempre.]
CAP. DÉCIMO TERCEIRO
Como se passa do enamoramento ao amor? Através de uma série de provas que pomos a nós próprios, que pomos ao outro ou que nos são impostas pelo sistema exterior. Algumas destas provas são cruciais, e, se superadas, o enamoramento prossegue no regime de certezas quotidianas a que chamamos amor; caso contrário, segue-se algo de diferente: a renúncia, a petrificação ou o desenamoramento.
Como quer que seja, estas provas são geralmente esquecidas. Se o enamoramento se torna amor, elas aparecem-nos, retrospectivamente, quase como uma brincadeira. (…) as provas são também esquecidas quando o enamoramento não prossegue (…) não nos recordamos de as ter posto, mas somente de que o outro não nos amou bastante(…) O processo descrito não se verifica uma vez só, mas muitas vezes, de cada vez encontra o desespero e termina num pacto. As novas certezas tornam-se o ponto de partida para reorganizar a existência quotidiana.
Não há regras para saber se um enamoramento se torna amor, para saber se um dilema é insolúvel ou não, pois os planos de vida podem ser tão diversos que não admitem compromissos. Cada um exige a desumanização do outro: se a obtém perde-o, se não a obtém perde-o na mesma (…) o enamoramento mais intenso é aquele que põe em jogo mais existência, mais riqueza, mais responsabilidade, mais vida. O enamoramento é uma revolução: quanto mais complexa, articulada e rica for a ordem, mais terrível é o desenvolvimento, mais difícil (…) o processo. É frequente enamorarem-se duas pessoas das quais uma possui grande riqueza de existência e a outra grande possibilidade de mudança, porque tem menos vínculos (…) esta diversidade, esta sua natureza perturbante torna justamente mais difícil que o enamoramento se transforme em amor estável, em serena e duradoira convivência. É mais fácil o amor surgir quando as duas pessoas se encontram numa situação mais equilibrada, cada uma com poucos vínculos (como os jovens ou os adolescentes) (…) neste caso o enamoramento é menos intenso, porque a sua tarefa revolucionária é menor; às vezes não necessita de alterar quase nada. Nisto é perfeitamente análogo aos grandes movimentos colectivos. (…) Um enamoramento pode (…) marcar, perturbar profundamente a existência de uma pessoa ou de duas sem criar amor, e, ao invés, é possível surgir o amor sem um enamoramento perturbante, mas de um encontro sereno, do prazer de se estar juntos, de se poder facilmente estabelecer aquele querer em conjunto o que cada um quer, e o pacto institucionaliza-o.